sexta, 17 março 2017
Golegã e Azinhaga Tomartv.com

A história do concelho da Golegã está profundamente ligada aos dois rios que o percorrem -o Almonda e o Tejo-, à fertilidade célebre dos seus solos, às grandes quintas agrícolas, às cheias, às touradas, aos lazeres reais.

Segundo reza a história, a Golegã, enquanto povoado,teve origem numa estalagem estabelecida no tempo de um dos primeiros reis de Portugal -talvez D. Sancho para acolher gente de passagem de Lisboa para o norte e para se proceder à muda de "cavalgadura", em tão longa jornada. Esta estalagem tudo leva a crer ter sido pertença de uma mulher da Galiza, residente em Santarém.

Daí o povoado então nascente se ter chamado de "Venda da Galega", mais tarde Golegã. Esta estalagem estava situada num ponto estratégico e importante, junto à principal estrada real.

No reinado de D. João I já a Golegã tinha grande importancia, assim como, mais tarde, no de D. Afonso V, tendo atingido o auge no reinado de D. Manuel. O Lugar de Golegã foi elevado à categoria de vila por carta de D. João III, em 1534.

A par da importância do lugar em que se situava, a região da Golegã detinha uma das maiores riquezas da altura: um solo fértil. A fama das suas terras chamou muito povo a si, assim como grandes agricultores e criadores de cavalos. Desde os tempos mais remotos vêm alusões à região, de que é exemplo a importantíssima Quinta da Cardiga que, em 1169, fora doada por D. Afonso I à ordem do Templo para arroteamento e cultivo. De século para século foi a mesma sendo doada a outras ordens e, a partir do séc. XIX, comprada por diversos grandes agricultores.

Em meados do Séc. XVIII surge, essencialmente ligada à criação de cavalos e à necessidade de venda de produtos agrícolas da região, a Feira de S. Martinho. A partir de 1833, e com o apoio dado pelo Marquês de Pombal, a feira começou a tomar um importante cariz competitivo. Começaram a realizar-se concursos hípicos e diversas competicões de raças. Os melhores criadores de cavalos concentravam-se então na Golegã.

Quando no reinado de D. Maria I se construíu a estrada ligando Lisboa ao norte por Leiria e Pombal, a Golegã decaíu bastante, tendo-se recomposto somente mais tarde, no séc. XIX, com base na valorizagão agrária da região. Para esta "reconstituição" da importância da Golegã muito contribuiram as figuras de dois grandes agricultores e estadistas: Carlos Relvas, fidalgo da Casa Real, grande amigo do Rei, comendador, lavrador, artista, proprietário de diversos estabelecimentos agrícolas e de dois palácios (onde por várias vezes hospedou a familia real), e José Relvas, seu filho, democrata imensamente ligado à causa republicana, ministro das finanças e também um grande artista.

Profundamente liberal, a Golegã esteve ligada às lutas entre D. Pedro e D. Miguel e à implantação da República. Como quase todas as vilas deste país, sofreu as acções de pilhagem e saque das tropas invasoras francesas.

A segunda freguesia deste concelho, a Azinhaga, remonta ao período da dominação árabe. O seu nome vem, provavelmente, de "Azenha", que significa, em árabe, "apertar", "estreitar", ou ainda "Zenagga", que quer dizer, também em árabe, "muitas azinheiras juntas". Antes da fundação de Portugal era conhecida por Santa Maria do Almonda. Teve foral no reinado de D. Sancho II.

Fertilizada pelas águas do Almonda, as terras de Azinhaga são também as mais directas responsáveis pela importância da região. Doadas como "prémio" a diversas ordens e à nobreza deste reino, aqui se foram fundando e desenvolvendo importantes quintas, como a "Boquilobo" e a "Brôa".

A Azinhaga foi vila independente no reinado de D. Joso IV. Até 1895 pertenceu a Santarém, data a partir da qual passou a pertencer ao concelho da Golegã.

Intimamente ligada à história da Golegã estão os seus grandes lavradores, quintas e ganadarias e, com eles, um imenso povo assalariado. A par da grande riqueza, a realidade de uma população que conheceu a fome e a pobreza: " (...) Um concelho rico de terra fértil, somente agrícola, e os seus habitantes pobres; mas pobres de facto porque raro é aquele que possua quatro paredes a que possa chamar sua casa.(...) Terra rica, gente pobre, um paradoxo, corolário das más funções do regime de propriedade especialmente da sua exploração, entregue a rendeiros, mercenários da lavoura, que tornam as condições de vida económica e social insuperáveis perante a razão das coisas"(1)

(1) in "Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém", nº3 - artigo "A terra, o trabalho e o Homem" de José Serrão e Faria Pereira.

in DIAGNÓSTICO SÓCIO-CULTURAL DO DISTRITO DE SANTARÉM - ESTUDO 1, Santarém, 1985, pág. 328-329

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